Mitos no desenvolvimento da linguagem e da fala.

Na área profissional da Terapia da Fala, frequentemente são proferidas, por parte da comunidade em geral, algumas afirmações relacionadas com o desenvolvimento da linguagem e da fala na criança que são tidas como verídicas, embora, na verdade, sejam erróneas. Com esta publicação, pretende-se desmistificar alguns dos principais mitos relacionados com este tema.

Mito 1: “O meu filho(a) não fala bem porque é preguiçoso(a).”

Se pensarmos no esforço necessário para produzir fala, em nada se compara ao esforço necessário para escrever ou até mesmo para fazer um gesto. Por isso, as dificuldades ao nível da fala não se justificam por preguiça. Importa compreender se são dificuldades exclusivas na fala, ou se podem estar associadas a outros quadros clínicos. Além disso, podem acontecer por uma diversidade de fatores, entre eles, dificuldades na linguagem expressiva e compreensiva, alterações nas estruturas e nos músculos orofaciais, dificuldades no planeamento dos movimentos, dificuldades de audição e atenção, questões emocionais e inclusive ao nível da integração sensorial (do âmbito da Terapia Ocupacional).

Mito 2: “A fala só se desenvolve depois dos 2 anos.”

Apesar das primeiras palavras surgirem apenas por volta do primeiro ano e as primeiras frases entre os 18 meses e os dois anos, antes destes marcos existem muitos sinais que indicam que a criança efetivamente está a adquirir competências linguísticas.

Mito 3: “Antes dos 3 anos, não vale apena fazer terapia.”

O desenvolvimento da linguagem tem início na gravidez, passando por uma fase pré-linguística em que as palavras ainda não são utilizadas (comunicação não-verbal). Se o Terapeuta da Fala atua desde o nascimento, poderá fazer sentido ter intervenção desta especialidade. Até aos 3 anos, a criança poderá necessitar de intervenção não só na linguagem, como na introdução alimentar ou até mesmo na amamentação. Nunca desvalorize uma dificuldade da sua criança, pois quanto mais precoce for a intervenção, menores são os riscos de agravamento, e mais fácil será reverter as dificuldades.

Mito 4: “A Terapia da Fala é só para as crianças que não falam bem.”

Este é, talvez, o mito mais frequente na nossa prática profissional. O nome da profissão é muito redutor, tendo em conta que a Terapia da Fala não se limita à fala propriamente dita, como a designação indica. Assim, o Terapeuta da Fala pode intervir com recém-nascidos, crianças, adultos e idosos, em diversas áreas de intervenção. De um modo geral temos a: linguagem (oral e escrita), comunicação (verbal e não-verbal), deglutição, motricidade oro-facial, voz e fala.

Mito 5: “Não precisa de terapia, isso com a idade passa…”

Em alguns casos pode acontecer, e a criança ultrapassa as dificuldades com a continuidade do seu desenvolvimento. Porém, não é algo observável em todos os casos e esperar que tal aconteça, poderá agravar o problema e aumentar o atraso no desenvolvimento da linguagem.

Mito 6: “Falar à bebé com a criança vai atrasar o desenvolvimento da linguagem e da fala.”

Ao contrário do que se possa pensar, “falar à bebé” pode ser promotor do desenvolvimento da linguagem e da fala, em crianças até aos 18 meses de idade. Os estudos têm mostrado que o “baby talk” (o padrão de fala que habitualmente utilizamos quando interagimos com o bebé, associado a expressões faciais apelativas, uma voz mais melódica e a um ritmo mais lento), contribui para a relação entre o bebé e o adulto, potencia a atenção do bebé e o desenvolvimento da linguagem. A partir dos 2 anos, perpetuar o uso de um padrão de fala imaturo com a criança pode sim tornar-se prejudicial ao seu desenvolvimento.

Mito 7: “Devo insistir para que a criança repita uma palavra depois de mim.”

Na tentativa de querermos que a criança comunique e fale connosco, temos tendência para lhe pedir que repita uma determinada palavra ou frases muitas vezes. Contudo, o pedido incessante da repetição pode ser inibidor para a comunicação, que se quer o mais espontânea e prazerosa possível, e gerar frustração e insegurança na criança. Em substituição, o adulto pode dar o modelo com mais frequência, em diferentes momentos e situações do dia-a-dia, e sem pedir necessariamente a repetição imediata.

Mito 8: “Uma criança que tenha atraso na fala, estando os outros domínios do desenvolvimento dentro do esperado para a idade, não precisa de terapia da fala.”

De facto, existem algumas situações em que uma criança com estas características pode vir a adquirir fala sem intervenção terapêutica. No entanto, é uma minoria. Os estudos mostram-nos que mais de metade de crianças com fala tardia não conseguem ultrapassar estas dificuldades sem apoio e, mesmo as que conseguem, estão em risco de vir a desenvolver dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita no futuro. Em caso de dúvida, é importante avaliar e compreender a necessidade ou não de apoio de Terapia da Fala.

Mito 9: “O meu bebé come bem, mas com um tablet à frente.”

Será que come efetivamente? Nós, adultos, comemos com um tablet? A alimentação deve ser um processo de convívio entre os membros da família e um momento agradável. Se o seu bebé recusa alimentos novos ou se come apenas distraído, é caso para avaliar e solicitar ajuda.

Mito 10: “Os terapeutas da fala só brincam com as crianças.”

Durante o acompanhamento terapêutico com crianças, e para quem assiste às sessões, parece realmente que o terapeuta da fala está a brincar com a criança. Na verdade, na Terapia da Fala, recorre-se aos jogos e aos brinquedos como estratégias para trabalhar objetivos de intervenção, pelo que através do brincar estruturado com a criança, o Terapeuta da Fala pode levá-la a:

  • Aprender e desenvolver novo vocabulário;
  • Desenvolver competências sociais e comunicativas;
  • Aprender a produzir e pronunciar novos sons;
  • Envolver-se em conversas;
  • Contar e inventar histórias, entre outros.

Com o brincar o terapeuta da fala consegue obter da criança toda a motivação e o envolvimento necessários para a ajudar a encarar novos desafios e experiências, e aprender competências que, sem jogos e brincadeiras, poderiam ser mais difíceis de assimilar!

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